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domingo, 25 de junho de 2017

"Muitos dos maiores males deste mundo começam com a corrupção da linguagem", diz Amós Oz


Em entrevista concedida por telefone, o escritor israelense falou sobre a pecha de "traidor" com a qual é rotulado pelos seus adversários políticos, de sua visão da literatura e da adaptação para o cinema de seu livro de memórias, De Amor e Trevas (2003).

Por Carlos André Moreira

Amós Oz é provavelmente o maior e mais conhecido escritor israelense vivo. É também autor de uma obra umbilicalmente ligada à história de Israel: alguns de seus grandes romances, como Uma Certa Paz (1982), A Caixa Preta (1987), Fima (1991) e Pantera no Porão (1995), fazem uma crônica artística da trajetória do país, suas crises e marés políticas, suas guerras. Ao mesmo tempo, Oz é um dos escritores mais controversos dentro da própria nação de Israel, dado que sua militância pela paz na região e as críticas duras que costuma dirigir a governos israelenses (como o do primeiro-ministro da direita linha-dura Benjamin Netanyahu) provocaram ataques virulentos de seus próprios compatriotas.

Oz, 78 anos, é o palestrante desta segunda-feira no ciclo Fronteiras do Pensamento, e vem a Porto Alegre falar de sua literatura e de suas visões políticas. Ele é cofundador do movimento de esquerda Paz Agora, com outros políticos e acadêmicos de Israel, e já tratou do conflito na região em ensaios e artigos. Um volume selecionando três desses ensaios mais longos será lançado pela Companhia das Letras durante a vinda do autor: Mais de uma Luz, no qual Oz retoma e amplia questões de que já havia tratado em Como Curar um Fanático. Em entrevista concedida por telefone de Israel, Oz falou sobre a pecha de "traidor" com a qual é rotulado pelos seus adversários políticos, de sua visão da literatura como uma necessidade humana e da adaptação para o cinema feita recentemente por Natalie Portman de seu livro de memórias, De Amor e Trevas (2003).


Que temas o senhor pretende abordar em sua palestra em Porto Alegre?

Eu vou falar, primeira e principalmente, a respeito de meu país, Israel, e vou compartilhar com a audiência um pouco da minha visão política, que é bem diferente da política do governo israelense. E também vou falar sobre a minha obra literária.

O senhor comentou as diferenças de sua visão política com relação ao governo de Israel. O senhor e outros escritores israelenses, como seu amigo David Grossman, já foram ferozmente criticados pela direita israelense e tachados de inimigos do país. Como o senhor se sente a respeito desse tipo de acusação?

Me sinto triste e orgulhoso. Sinto-me triste porque muitos israelenses não entendem minhas ideias ou não as aceitam. Mas também me sinto orgulhoso porque, a cada vez que alguns de meus compatriotas me chamam de "traidor", eles me colocam em muito boa companhia, ao lado de alguns dos grandes escritores, poetas, profetas, intelectuais e estadistas na História que foram chamados de traidores por seus próprios contemporâneos. A cada vez que alguém aqui me chamar de traidor, eu usarei esta comenda na minha lapela, como um distintivo de honra, ao lado da Legion d¿Honneur que (o então presidente francês) Jacques Chirac me concedeu há cerca de 10 anos. Assim, penso que ser considerado traidor por alguns de seus compatriotas é uma honra.

Essa é a razão pela qual o senhor decidiu escrever um romance sobre Judas?

Sim, eu escrevi sobre lealdade e traição, e quão complicada é a relação entre lealdade e traição e sobre o fato de que, algumas vezes, o que muitas pessoas chamam de traição parece a outras uma lealdade mais profunda. No meu romance Judas, há muitas personagens que traem outras pessoas, mas Judas não é uma delas. Judas é, no livro, extremamente leal a seu mestre, Jesus. Judas acredita em Jesus mais do que o próprio Jesus acredita em si mesmo.

Nesse sentido, o Judas apresentado em seu romance é um pouco o retrato que o senhor também já fez do fanático.

Sim. Judas no romance acredita em redenção instantânea. Ele gostaria de apressar a chegada do Reino dos Céus. Ele queria pôr os eventos em ação de tal modo que a salvação universal ocorreria imediatamente. E esse é um pensamento típico de fanáticos que perseguem a salvação instantânea.

E o que atraiu em um personagem como esse?

Bem, muitas pessoas, não apenas as religiosas, mas também as revolucionárias e radicais acreditam em salvação instantânea. Muitos dos meus personagens têm crenças que eu não compartilho. Não acredito nas mesmas coisas que meus protagonistas. Alguns deles acreditam em salvação instantânea, eu acredito em soluções práticas. Alguns deles acreditam em fraternidade global, eu acredito mais na coexistência pragmática entre vizinhos, não em amor universal. Com frequência, escrevo sobre protagonistas que não compartilham minhas ideias e crenças políticas, mas como figuras elas me entusiasmam e eu escrevo a respeito.

Qual é o alcance social da atividade de um escritor em Israel e no Oriente Médio, dada a situação atual de conflitos na região?

Eu não gosto de fazer generalizações a respeito do papel social de escritores ou da literatura. Eu prefiro falar sobre o dom da literatura. Penso que romances, contos, poesia, podem abrir para leitor diversas janelas para o mundo exterior e para dentro de si mesmo. Então, em vez de discutir o papel da literatura e dos escritores, eu prefiro falar sobre o presente que é a literatura. Para mim, como leitor, os livros que eu gosto foram um presente. Não são apenas veículos para carregar ideias ou conclusões ou algum tipo de manifesto político. Não, primeira e principalmente foram uma fonte de deleite. Acredito que contar e ouvir histórias são necessidades humanas básicas. Quando temos dois anos de idade, gostamos de ouvir histórias antes de dormir. Um pouco mais e estamos querendo que as pessoas ouçam as histórias que contamos. É uma necessidade humana, como o sonho ou o sexo. Não sinto que a literatura seja algum tipo de veículo carregando mensagens de um ponto a outro ou de uma pessoa para outra. Não é sobre manifestos ou balanços. A literatura é um jogo, e eu adoro esse jogo.

Sim, mas eu pensava mais em dois papéis diversos que o escritor assume. O senhor é um narrador, publica romances e histórias, são sua literatura, mas também publica ensaios e discursos a respeito de política e fanatismo.

Certamente. E nessas obras o que me move é principalmente uma responsabilidade para com a linguagem. Eu sou um escritor, trabalho com palavras todos os dias, do mesmo modo que um carpinteiro trabalha com a madeira ou um pedreiro com tijolos. Assim, eu sinto uma responsabilidade para com a linguagem. Penso que muitos dos maiores males deste mundo começam com a corrupção da linguagem, e é meu dever gritar a cada vez que vejo alguém usando uma linguagem contaminada. Quando algumas pessoas chamam outras de "estrangeiros indesejáveis", "elementos negativos", "câncer social" ou "parasitas", sei que é sempre aí que começam a violência, a perseguição e a crueldade. Daí meu senso de dever de trabalhar como o corpo de bombeiros do idioma, ou como um detector de fumaça, eu preciso gritar "fogo" sempre que leio ou ouço essas palavras que, mais cedo ou mais tarde, vão gerar violência.

Fonte: Zero Hora


sexta-feira, 23 de junho de 2017

Por que os cientistas falam em uma epidemia de miopia - e qual a sua origem



Nos últimos 50 anos, o número de pessoas míopes duplicou. Estima-se que em 2020 um terço da população mundial terá o problema na visão, em 2050, a metade.
"Estamos em meio a uma epidemia global de miopia", disse o médico Earl Smith, professor de desenvolvimento da visão e decano da Faculdade de Optometria da Universidade de Houston, nos Estados Unidos.
E essa epidemia tem mais incidência entre os jovens do leste da Ásia, em países como China e Coreia do Sul, onde o problema afeta quase 90% dos estudantes que concluem o Ensino Médio.
Em outras regiões do mundo, embora os números não sejam tão alarmantes, a condição também avança.
As pessoas míopes podem ver claramente os objetos que estão próximos, mas não conseguem focar objetos distantes.
Ela ocorre quando o globo ocular cresce demais e fica maior do que o normal. Essa condição visual costuma se manifestar quando as crianças estão em idade escolar e piora gradualmente até que o globo ocular complete seu crescimento.
Se não for detectado e corrigido com lentes, a miopia pode progredir e, com o tempo, aumentar significativamente o risco de catarata, glaucoma, desprendimento da retina e maculopatia míope.
Além disso, está entre as três primeiras causas de cegueira permanente no mundo.
Qual é a causa?
Os especialistas acreditam que a genética tenha um papel no desenvolvimento da miopia, mas não é o único fator.
"Há algo em nosso comportamento e nosso ambiente que está contribuindo para o aumento de casos de pessoas míopes", garante Smith, que recebeu financiamento de US$ 1,9 milhão (R$ 6,3 milhões) exatamente para investigar as causas e estratégias de tratamento.
Muitos estudos mostram que as pessoas que passam mais tempo ao ar livre são muito menos propensas a desenvolver miopia que aquelas que permanecem a maior parte do dia entre quatro paredes.
"A demanda educacional cada vez mais exigente e o fato de se passar mais tempo em espaços fechados são fatores que contribuem para que uma pessoa se torne míope", acrescenta Smith.
"Na Ásia, entre 80% e 95% dos jovens que terminam o Ensino Médio nas zonas urbanas têm miopia, e já evidências fortes de que o índice também está aumentando nos Estados Unidos e na Europa", disse ainda o especialista, um dos líderes no tema.
"Nas situações em que há uma expectativa educacional alta, é mais provável que as pessoas desenvolvam miopia. Considere nossos próprios estudantes de optometria como exemplo: aproximadamente metade se torna míope durante os quatro anos de estudos aqui", contou o professor da universidade de Houston.
Smith e sua equipe estão agora se debruçando sobre os fatores ambientais, como a exposição a certos tipos de luz, que podem ter um impacto sobre o crescimento do globo ocular que leva à miopia.
O que podemos fazer?
A miopia não tem cura nem é reversível, mas o uso de óculos pode impedir ou desacelerar o avanço da condição.
Também há cirurgia com laser que altera a forma do globo ocular para corrigi-lo, embora esse procedimento não seja recomendado em crianças ou jovens que ainda estão em processo de crescimento.
A maioria dos pesquisadores concorda que estimular crianças a brincar ao ar livre ajuda a reduzir o risco de desenvolver o problema.
Também há estudos mostrando que, ao brincar ao ar livre, a miopia infantil pode avançar num ritmo mais lento.
Os especialistas acreditam que isso tem a ver com o fato de que os níveis de luz no exterior são muito mais altos que no interior.
Por outro lado, passar muito tempo focando a vista em objetos muito próximos, como lendo, escrevendo ou usando dispositivos portáteis como celulares, tablets ou laptops, pode aumentar o risco miopia, segundo o NHS, o serviço público de saúde britânico.
Fonte: R7

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Como ler mais e mais rápido


Algumas pessoas conseguem ler mais de 100 livros por ano.
Sim, elas existem. Mas como fazem isso?
E como elas dizem que as outras pessoas também conseguem fazer se quiserem?
Isso parece impossível pra você? Bom, não é. Eu, por exemplo, costumo ler cerca de 50 livros por ano, e sei que se eu me dedicasse um pouco mais, conseguiria alcançar a meta de 100 livros em 365 dias.
Porém, um especialista em memória e concentração entrevistado pela revista GQ disse que o segredo não é dedicação. Na verdade, é o desprendimento. Como assim? Ele dá dicas infalíveis para você ler mais e mais rápido – um livro por semana, especificamente.

Não leia antes de dormir, leia antes de trabalhar
A maioria das pessoas decide ler antes de dormir. Se você lê à noite, você provavelmente só vai conseguir vencer algumas páginas antes de ficar sonolento. Em vez disso, a recomendação é cair na leitura na parte da manhã. Mesmo se você não é tipo de pessoa que levanta bem mais cedo do que o necessário, use o tempo que você gasta fuçando o Facebook ou no Instagram antes de sair para o trabalho para ler alguns capítulos. Você também pode ler no caminho, se for trabalhar de ônibus, ou durante o café da manhã.

Abuse do transporte público
Além de economizar, ler no transporte público vai te fazer avançar bastante na leitura e te manter mais concentrado na história. Aliás, leve o livro para tudo quanto é canto.
Aliás, é importante levar o livro para tudo quanto é canto: consulta médica, shopping, enfim, qualquer lugar. Ter um livro por perto vai te fazer gastar aqueles minutos que você normalmente gasta no celular, lendo.

Se o livro estiver uma droga, pare
Não se sinta obrigado a terminar um livro porque já começou. Tem livros que não funcionam para determinadas pessoas, histórias que não cativam, tipos de leitura que não prendem. Enfim, se o livro estiver realmente chato ou ruim, largue. Vá ler outra coisa.

As livrarias ainda existem – pegue livros emprestados
Pegar um livro em uma livraria vai te obrigar a ler o livro mais rápido, afinal, você vai precisar devolver em um prazo, certo? Outra dica é pegar livros emprestados e pedir para a pessoa que te emprestou cobrar a devolução.

Leia mais de um livro ao mesmo tempo
Parece loucura, mas é uma boa tática. Leia mais de um livro ao mesmo tempo: um romance, um livro de “não ficção”, um quadrinho…Não importa.
Dessa forma, quando você se sentar para ler, vai sempre encontrar algo que se encaixe com o seu humor do momento. Se você, por exemplo, tiver muito tempo disponível, parta para o romance. Se o seu dia foi chato e cansativo, leia quadrinhos.

Mantenha um histórico do que você leu
Registrar o que você leu em aplicativos específicos ou até mesmo nas suas redes sociais vai te fazer se sentir mais realizado e também incentivado a continuar lendo. Pode apostar.

Dito isso: divirta-se. Ler não deve ser uma obrigação chata, deve ser algo que te dê prazer.



Alien | A história por trás da criatura do filme clássico

Sem CGI, ator utilizava roupa com capacete de dois quilos e causava medo real no elenco

Alien: Covenant chegau aos cinemas brasileiros e apresentou mais uma vez uma das criaturas mais assustadoras de todos os tempos. Para nova produção, o monstro foi todo criado em CGI, o que o deixou ainda mais real. Porém, no passado um longa não podia contar com toda essa tecnologia e o primeiro Alien precisou de um trabalho conjunto entre um artista, um ator sem experiência e muito esforço de Ridley Scott e sua equipe para ganhar vida. 
Na época, efeitos práticos eram fundamentais para criar a magia do cinema. Computadores não eram capazes de realizar cenas reais, quanto mais uma criatura alienígena ameaçadora. Por isso, assim que iniciou a pré-produção de seu longa, Scott começou a procurar um artista que conseguisse desenvolver o visual do Alien e criasse algo completamente diferente do que foi feito até então. Dan O’Bannon, que desenvolveu a história ao lado de Ronald Shusett, logo lembrou de um artista que havia conhecido em uma adaptação de Duna que nunca foi realizada: H.R. Giger.
O trabalho do suíço havia assustado e, ao mesmo tempo, maravilhado o roteirista, que não conseguia tirar um de seus desenhos da cabeça. “Olhando para eles, eu pensava ‘Se alguém desse para ele o design de um filme de monstro, seria algo que ninguém jamais viu’”, afirmou ao site Tested. Com isso, ele enviou para o diretor uma cópia de Necronom IV (foto abaixo), que o artista criou em 1976, e imediatamente o cineasta soube que havia encontrado alguém não apenas para o monstro, mas para todo o conceito alienígena do longa.


Usando seu desenho como base, Giger fez modificações na cabeça, deu uma segunda boca para criatura e descobriu uma maneira de deixa-la ainda mais ameaçadora para o público. “Chegamos à conclusão que se não tivesse olhos e fosse guiada apenas pelo instinto ela seria mais aterrorizante”, explicou no documentário de 1979 sobre o filme. Logo ele e sua equipe construíram uma pequena escultura e, em seguida, criaram uma fantasia que pudesse ser usada por um homem. Contudo, agora a equipe esbarrava em um novo desafio: encontrar uma pessoa que conseguisse usá-la.
A produção começou a testar diversos artistas no papel do Xenomorfo. Primeiro tentaram contorcionistas, que não funcionaram. Depois, tentaram jogadores de basquete, mímicos e até Peter Mayhew, intérprete de Chewbacca em Star Wars, foi considerado. Contudo, nenhum deles funcionava bem na fantasia. “Nós tínhamos essa visão de um Louva-Deus. Nós precisávamos de alguém incrivelmente alto com pernas longas, para que quando essa pessoa abaixasse tivéssemos a impressão de um inseto”, afirmou à CNN Ivor Powell, produtor associado do longa.
Depois de muita busca, o diretor de casting Peter Archer encontrou por acaso em um bar de Londres o nigeriano Bolaji Badejo, um homem que nunca havia atuado, mas tinha todas as características físicas necessárias para o papel. “Assim que eu entrei, Ridley Scott sabia que havia encontrado a pessoa certa”, afirmou Badejo à Cinefantastique em 1979. Disposto a fazer o melhor trabalho possível, ele começou a ter aulas de mímica e passou a treinar para ganhar músculos na perna para chegar na ideia da produção. Porém, a enorme cabeça do monstro dificultava seus movimentos. “Eu mal podia ver, exceto quando eu estava parado enquanto eles filmavam. Era algo incrivelmente quente... eu conseguia usar algo entre 15 e 20 minutos por vez. Quando eu tirava, minha cabeça estava ensopada de suor”, completou para publicação.
No vídeo abaixo, o nigeriano testa diferentes formas de movimentação com uma roupa ainda rudimentar e uma cabeça teste, que ainda conta com olhos:


Não era fácil lidar com o traje, mas o ator manteve-se profissional e com o tempo tornou-se a personificação do Xenomorfo. Para aumentar o realismo do longa, Scott pediu para que ele não interagisse muito com o elenco para que os outros atores sentissem um medo verdadeiro em cena. “Durante os intervalos ele não ficava tomando chá conosco e ficava longe, nunca conversávamos. Quando víamos essa enorme criatura em cena, era eletrizante. Não era atuação. Nós estávamos verdadeiramente aterrorizados”, afirmou Sigourney Weaver ao Daily Mail.

Apesar do esforço de BadejoRidley Scott sabia que ele não conseguiria atingir o nível de realismo necessário para as câmeras. Por isso, utilizou a mesma técnica de Steven Spielberg em Tubarão – mostrar a criatura o menos possível e criar o suspense com a trilha sonora e trabalhando com a reação de seus atores. “Em Alien, o filme mais assustador da série, você não vê muito do monstro pois eu tinha uma limitação no que poderia fazer. O capacete [que servia de cabeça da criatura] era longo e pesava dois quilos e se você vira sua cabeça com dois quilos, você corre o risco de machucar o pescoço. Tudo era um problema”, afirmou ao Deadline.
Mesmo com as limitações, Balejo tornou-se a principal atração do filme. Contudo, um dos momentos mais icônicos do longa não conta com sua presença. Apesar de ter sido feito no final dos anos 70, o efeito da criatura explodindo pela barriga de John Hurt segue uma das mais potentes do cinema e muito se deve a reação do elenco, que não fazia ideia de como a cena seria realizada. “Essas reações são as coisas mais difíceis de conseguir. Se um ator finge estar assustado, você não consegue pegar esse lado brutal e animalesco dele”, explicou ao The Guardian.
Durante a manhã, eles levaram Hurt para se preparar e deixaram o restante do elenco sozinho por quatro horas. No roteiro, estava escrito apenas: 'a criatura surge'. Tempos depois, prepararam um peito artificial preso na mesa e John ficava embaixo dele. Quatro câmeras estavam preparadas para filmar e todo o set foi coberto com plástico, enquanto a equipe utilizava capas de chuva. “Ninguém disse uma palavra. Eu olhei para Sigourney e ela estava verdadeiramente assustada. ‘Você realmente está na personagem’, eu disse. E ela respondeu, ‘Não, eu estou sentindo que ficarei com uma grande repulsa agora”, disse o roteirista Ronald Shusset 


Assim que Scott gritou “ação”, todos começaram a se aproximar do peito falso de John e com certo receio de como a cena seria. Quando a criatura explode pelo peito, todos realmente se assustam e o diretor consegue a reação que sonhava. “Veronica Cartwright, quando o sangue bateu na cara dela, desmaiou. Eu ouvi da esposa de Yaphet Kotto que depois da cena ele foi para o quarto dele e não queria falar com ninguém”, completou Shussett.
Muito além dos efeitos especiais, o primeiro filme conta com um cineasta e um elenco em busca das reações perfeitas. Alien Covenant promete trazer de volta a essência do longa de 1979, mas apesar do CGI parecer mais real, dificilmente ele superará um clássico onde o mais importante era encontrar a melhor cena.
Fonte: Omelete

quinta-feira, 15 de junho de 2017

O bem que faz ler um livro, em 7 razões comprovadas pela ciência


O primeiro livro impresso data do séc. XV, mas antes de Cristo já o Homem começara a escrever em folhas de papiro, no Egito.

Desde então quase todo o conhecimento ficou gravado em páginas de livros e, nas últimas décadas, as obras publicadas cresceram ainda mais em número, assim como foram surgindo investigações sobre os benefícios da leitura.

De fomentar a inteligência a prolongar a esperança média de vida, a leitura só traz benefícios

Os sete benefícios de ler um livro, segundo a ciência:

Alarga o vocabulário
Nenhuma atividade expõe uma pessoa a maior e mais diversificada quantidade de palavras. Mais do que assistir a programas televisivos de conversas, vulgo talk shows, ou infantis, como a “Rua Sésamo”, e mais do que uma conversa de amigos, mesmo que sejam todos licenciados, é a leitura que aporta um vocabulário mais alargado, indica um estudo da Universidade da Califórnia.


Desperta a inteligência
A ciência já mostrou que a genética e a educação são fatores que influenciam a inteligência, sendo que ler é uma das principais fontes de conhecimento. Um estudo de 2014 com crianças, realizado por investigadores da Universidade de Edimburgo, na Escócia, e da King’s College of London, em Inglaterra, concluiu que a evolução das capacidades de leitura “pode resultar em melhorias nas habilidades cognitivas verbais e não verbais”, que “são de vital importância ao longo da vida”. E quanto mais cedo se começar, melhor.

Previne doenças
Correr e ir ao ginásio são atividades físicas na moda porque o exercício fortalece o corpo e promove o bem-estar. Mas, por mais variado que seja o treino, nem todos os músculos são trabalhados. Para garantir que nenhum fica para trás, ler um livro é um bom remédio: inúmeros estudos indicam que a leitura estimula os músculos do cérebro e torna-os mais fortes, podendo atuar como fator preventivo em doenças degenerativas como o Alzheimer. Está também provado que pessoas com profissões intelectualmente mais exigentes têm menor propensão para desenvolver patologias ligadas à deterioração do cérebro.

Reduz o stresse
Nem caminhar, nem ouvir música, nem beber um chá. Nada resultou melhor do que ler um livro para acalmar um coração acelerado, segundo uma pesquisa liderada pelo neuropsicólogo britânico David Lewis, da Universidade de Sussex. Bastaram seis minutos de leitura para os níveis de stresse das pessoas que aceitaram participar diminuírem até 68%, contra um máximo de 61% quando tentaram acalmar através da música. Um chá (54%) ou uma caminhada (42%), outras alternativas avaliadas, mostraram-se menos eficazes.

Promove a empatia
Ainda que um livro seja encarado como uma companhia, ler é em si mesmo um ato solitário. Mas entre os seus benefícios encontra-se também a tendência para causar melhor impressão nos outros. Um estudo de dois investigadores holandeses mostrou que a leitura de narrativas ficcionadas influencia características própria da condição humana como a capacidade de criar empatia. E esse é um trunfo importante em qualquer relação, seja pessoal ou profissional.

Combate o envelhecimento do cérebro
Há uma relação direta entre a atividade cognitiva realizada ao longo dos anos e a perda das capacidades cognitivas associadas ao envelhecimento natural, como a memória, o raciocínio ou a perceção. Quanto maior atenção se dedicar à primeira, por exemplo através da leitura de livros, mais lenta se torna a segunda, concluiu um estudo de 2013 publicado no jornal científico Neurology, da Academia Americana de Neurologia.

Aumenta a esperança média de vida
Mais dois anos. Em rigor, 23 meses. Conforme um estudo da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, revelou que, em média, é esse o tempo que vivem a mais as pessoas que leem um livro 30 minutos por dia, quando comparadas com as que não o fazem. Os investigadores chegaram a esta conclusão ao fim de 12 anos de estudo, publicado no jornal Social Science and Medicine.


quarta-feira, 14 de junho de 2017

Livros infantis que ainda são assustadores para adultos



As crianças podem ser bem mais fortes do que nós imaginamos.
Adultos que se preocupam com histórias de ficção temendo que sejam assustadoras demais para as crianças, estão negligenciando uma verdade irrefutável: As crianças gostam de ter medo. O fato é que os fedelhos são feitos de um material bem resistente, e apreciam o tipo de adrenalina que vem na forma de um livro ou filme assustador.
Mas os adultos são aqueles que não sentem medo. Eles estão sempre no controle e sabem que sempre podem contar com alguma explicação lógica para qualquer coisa que fuja do racional.
Sendo assim, reunimos aqui alguns livros considerados ‘infantis’ com histórias tão apavorantes, que causariam pesadelos até mesmo no mais convicto dos adultos.

✔ Contos dos irmãos Grimm (Irmãos Grimm)
Uma coleção de histórias escritas por esses irmãos macabros, incluindo clássicos como “Rapunzel”, “Cinderela”, “Branca de Neve”, e outros. Só que a frase “… e viveram felizes para sempre” originalmente não se aplicava às irmãs malvadas e invejosas de Cinderela, que tinham seus olhos arrancados por pássaros no final da história. (Editora Rocco)
Por que isso assustaria os adultos: Apesar dos filmes da Disney transformarem o conceito de contos de fadas em histórias de amor melosas cheias de pássaros cantando e finais felizes, os Irmãos Grimm utilizavam todo tipo de lições morais sombrias e punições cruéis para os ímpios. É até um pouco perturbador considerar que estas histórias em que crianças são devoradas, princesas entram em coma, e corações são arrancados, foram escritas para uma faixa de idade tão baixa.

✔ Algo Sinistro vem por aí (Ray Bradbury)
Uma história de horror, magia e poesia na qual dois garotos precisam enfrentar criaturas ameaçadoras dentro de um misterioso parque de diversões itinerante que parece não ter origem nem destino. É cíclico e carrega a força de símbolos e verdades que servem plenamente para representar a existência real e suas eternas conquistas, frustrações, ameaças e dúvidas. (Editora Bertrand Brasil)
Por que isso assustaria os adultos: Esses caras não são apenas ameaçadores como de costume. Eles são o mau encarnado e viajam por aí roubando as almas das pessoas. Logo os habitantes da cidade estão sob o poder do proprietário do parque, Sr. Dark, que tem uma tatuagem para cada pessoa que ele misteriosamente aprisiona.

✔ O Senhor das Moscas (William Golding)
Ao narrar a história de meninos perdidos numa ilha paradisíaca, aos poucos se deixando levar pela barbárie, Golding constrói uma história eletrizante, ao mesmo tempo uma reflexão sobre a natureza do mal e a tênue linha entre o poder e a violência desmedida. Um livro que retrata de maneira inigualável as áreas de sombra e escuridão da essência do ser humano. (Editora Alfaguara)
Por que isso assustaria os adultos: Uma ilha operada por garotos selvagens e sujos? Terrível. Olhe o que acontece quando deixamos os meninos aos seus próprios cuidados: sacrifícios, rituais, cabeças de porcos cortadas e crianças sendo esmagadas por pedregulhos.

✔ Ponte para Terabítia (Katherine Paterson)
Jess Aarons, um garoto de 10 anos, passou o verão treinando para ser o campeão de corrida da escola. Na volta às aulas, é ultrapassado por uma aluna nova. Os dois tornam-se grandes amigos, e criam um reino imaginário chamado Terabítia, onde governam soberanos protegidos das ameaças e zombarias da vida cotidiana. Até que um dia, uma fatalidade os separa, e Jess precisa ser forte para enfrentar essa triste realidade. (Editora Salamandra)
Por que isso assustaria os adultos: Durante um jogo entre as crianças, Leslie, a Rainha de Terabítia, cai para a morte após se balançar em uma corda que se solta da árvore onde estava amarrada. É uma dura lição de como a morte súbita e sem sentido pode atingir até as pessoas mais seguras de si.

✔ Buracos (Louis Sachar)
Acusado de roubar um precioso par de tênis, Stanley Yelnats é condenado a ir para um reformatório, localizado no leito seco de um lago. Todos os dias, casa um dos internos é obrigado a escavar um imenso buraco na terra dura e seca, sob um sol de rachar. Stanley percebe que na verdade os chefes do reformatório buscam alguma coisa que deve estar enterrada por ali. (Martins Fontes)
Por que isso assustaria os adultos: As relações entre os internos, as dificuldades para conseguir água, as brigas pelo poder entre os meninos e entre os dirigentes se entrelaçam com a revelação de episódios assustadores. O diretor do lugar só dá cebolas para os meninos comerem, e els tem que cavar para poder encontrar água.

✔ Uma Dobra no Tempo (Madeline L’Engle)
“Uma linha reta não é a distância mais curta entre dois pontos.” Esta ideia está por trás da incrível história da família Murry, traçada em ‘Uma dobra no tempo’. No livro, a autora Madeleine L´Engle proporciona uma verdadeira viagem, com dissolução e reconstituição de corpos no espaço, através de atalhos que fogem do longo caminho dos anos-luz, e dá lugar a uma passagem da quarta para a quinta dimensão, impensável no espaço tridimensional que conhecemos. (Editora Rocco)
Por que isso assustaria os adultos: O pai de Meg fica preso em um planeta distante, e ela precisa salvá-lo. Todo mundo que ela encontra nesse planeta age em perfeita sincronia, um lugar de extrema conformidade que é controlado por um cérebro incorpóreo do mal, com poderes e habilidades telepáticas chamadas de TI. Não importa quantos anos você tenha, essa ideia é sempre aterradora.

✔ Coraline (Neil Gaiman)
Coraline acaba de se mudar para um apartamento num prédio antigo. Seus vizinhos são velhinhos excêntricos e amáveis que não conseguem dizer seu nome do jeito certo, mas encorajam sua curiosidade e seu instinto de exploração. Em uma tarde chuvosa, consegue abrir uma porta na sala de visitas de casa que sempre estivera trancada e descobre um caminho para um misterioso apartamento “vazio” no quarto andar do prédio. Para sua surpresa, o apartamento não tem nada de desabitado, e ela fica cara a cara com duas criaturas que afirmam ser seus “outros” pais. (Editora Rocco)
Por que isso assustaria os adultos: Na verdade, aquele parece ser um “outro” mundo mágico atrás da porta. Porém, a menina logo percebe que aquele mundo é tão mortal quanto encantador e que terá de usar toda a sua inteligência para derrotar seus adversários. Um conto de como algumas percepções internas podem ser assustadoras.

✔ Histórias Assustadoras Para Contar no Escuro (Alvin Schwartz)
Uma seleção imperdível de contos de terror, histórias de vinganças cruéis e relatos sobrenaturais, recontados por Alvin Schwartz. Ele escolheu as histórias do folclore americano e as lendas urbanas mais inquietantes e que fazem todo mundo tremer de medo há muito tempo. Isso porque essa tradição de contar histórias de terror começou há milhares de anos, com grupos se divertindo e se reunindo em volta de fogueiras para ver quem assustava mais. (Editora José Olímpio)
Por que isso assustaria os adultos: Quem será que teve a brilhante ideia de lançar esse livro no mercado direcionado as crianças? Neste livro, você vai aprender como deixar todo mundo horrorizado e imaginando as criaturas mais estranhas e arrepiantes. Um livro perfeito para ser lido no escuro!

✔ Goosebumps – Sorria e Morra (Robert Lawrence Stine)
Greg acha que a velha câmera que encontrou está com defeito. As fotografias sempre saem…diferentes. Na foto que Greg tirou, o carro novo do seu pai apareceu todo destruído. Logo depois, o homem sofre um acidente que quase acabou completamente com o automóvel. É como se a câmera pudesse prever o futuro ou, pior, fizesse o futuro acontecer! (Editora Fundamento)
Por que isso assustaria os adultos: Qualquer um que tenha passado pelos anos 90 conhece o terror que é Goosebumps. Embora todos os volumes tenham seus encantos individuais, o livro ‘Sorria e Morra’ da série é especial! A história apresenta um objeto totalmente inofensivo como uma câmera fotográfica, e a transforma em um instrumento de morte e destruição. Realmente assustador.

✔ As Bruxas (Roald Dahl)
Um menino passa férias em um hotel de luxo com a avó e descobre que o local está sendo usado para uma convenção de bruxas. E para sair dessa inteiros, os dois precisam ser mais espertos que as anciãs diabólicas que se reúnem no lugar. (Editora WMF)
Por que isso assustaria os adultos: Este hotel está infestado por ratos – bem, na verdade os ratos que antes eram crianças e foram transformados pelas bruxas em pequenos roedores peludos. Mas, ainda assim, uma infestação de ratos pode arruinar qualquer férias. O livro também tem uma adaptação para o cinema de 1990, estrelando Anjelica Huston como a ‘rainha das bruxa’.


terça-feira, 13 de junho de 2017

A desinformação como estratégia política desafia o jornalismo

O presidente eleito dos Estados Unidos Donald Trump não é o primeiro político a usar a desinformação para encurralar adversários e seduzir eleitores, mas ele é seguramente quem a oficializou como estratégia prioritária de comunicação nas semanas que antecedem a mudança de governo na nação mais poderosa do planeta.
Desinformação é o processo pelo qual uma notícia falsa, parcialmente falsa, conceitos distorcidos ou fatos fora de seu contexto são sistematicamente difundidos por personalidades públicas e pela imprensa gerando a percepção de que são informações confiáveis entre os consumidores de informações.
Não é um processo novo, pois sempre existiu na política, nos negócios e na diplomacia como uma forma de tentar mudar a forma como as pessoas veem personalidades, fatos, dados e eventos. Quem mais se aproximou do fenômeno atual foi o chefe da propaganda nazista Joseph Goebbels que eternizou a frase: “uma mentira repetida milhares de vezes vira uma verdade”.
Donald Trump vem seguindo este preceito ao pé da letra, tanto que nas semanas anteriores às eleições norte-americanas do dia 8 de novembro, a sua assessoria de comunicação inundou a internet com 8,9 milhões de micro mensagens na rede Twitter, mais da metade das quais produzidas por robôs eletrônicos e 55% delas disseminavam notícias falsas favoráveis ao então candidato republicano.
Mesmo depois de vencer as eleições, quando todos esperavam que Trump fosse moderar a sua retórica conservadora, ele continuou a fazer afirmações altamente contestáveis sobre meio ambiente, diplomacia mundial, comércio internacional e liberdade de expressão na imprensa e na internet. O sucessor de Barack Obama não se preocupa com o fato de suas declarações serem consideradas levianas por especialistas econômicos, políticos liberais e pesquisadores acadêmicos. Muito menos dá importância às consequências previsíveis e assustadoras da desorientação informativa entre os leitores, ouvintes, telespectadores e usuários de redes sociais.
A maioria esmagadora da nova equipe republicana que assumirá a Casa Branca em janeiro aparenta confiar cegamente na máxima de Goebbels, tanto que o fenômeno batizado pela imprensa norte-americana como fake news (notícia falsa) passou a ser uma obsessão tanto dos jornais, telejornais como dos principais empresários da internet. Os grandes conglomerados da imprensa norte-americana e também do resto do mundo estão cada vez mais preocupados com a disseminação do fenômeno fake news porque ele atinge o cerne do negócio do jornalismo. A generalização da dúvida é uma consequência da irresponsabilidade quase criminosa de Donald Trump, e seus seguidores,  em distorcer fatos, estatísticas, conceitos e eventos.
Numa época caracterizada pela super abundância de informações e déficit de instrumentos para avaliar credibilidade, fica fácil aos políticos, empresários e tomadores de decisões usar o recurso da notícia descontextualizada porque a maior probabilidade é a de que ela não será contestada. Trata-se de um delito com alta chance de impunidade.
Delito com alta chance de impunidade
A descontextualização e distorção de dados tem sido um recurso quase corriqueiro entre políticos, governantes e empresários com a cumplicidade da imprensa, quando há coincidência de interesses entre os seus protagonistas. Esta situação não gerou consequências graves até agora porque os grandes grupos econômicos da mídia tinham um monopólio quase total da forma como a realidade era apresentada ao público. Na falta de versões alternativas, as fake news viravam verdade incontestável, até que algum fato histórico posterior, eventualmente,  desfizesse a versão original.
Mas esta situação está mudando rapidamente e o fenômeno desinformação na era Trump é talvez seja o prenúncio de que ainda enfrentaremos muitos problemas no futuro de médio e curto prazo. A responsável pela mudança e a internet porque ela permitiu que os indivíduos passassem a expressar seus pontos de vista à margem da mídia convencional, especialmente nas redes sociais. É um fenômeno comportamental (mudança de hábitos e rotinas) mas que já tem desdobramentos na política e começa a atingir a imprensa.
Richard Florida, um pesquisador da Universidade de Toronto e professor da Universidade de Nova Iorque publicou semana passada um estudo analisando o mapa dos resultados das últimas eleições presidenciais norte-americanas e chegou a uma conclusão preocupante: Trump perdeu na maioria das grandes cidades mas ganhou maciçamente nos pequenos condados do interior dos Estados Unidos, mostrando que sua mensagem carregada de fake news foi captada pelo eleitor das pequenas cidades que reagiram pelas redes sociais assumindo um protagonismo inexistente até agora.
As areas em vermelho indicam condados onde Trump ganhou. Em azul, vitória de Hillary Clinton. Fonte Flickr
Segundo Florida, emergiu uma nova cara dos Estados Unidos, contrariando a imagem bem-comportada do público urbano, fidelizado pela grande imprensa. A mudança do discurso político e da agenda pública norte-americana não é obra só das esquisitices e provocações de Trump mas é a manifestação de uma opinião pública que não encontrava formas de se expressar até agora.
A internet está mudando a geografia política, não só dos Estados Unidos, mas em muitos outros países, da Europa, por exemplo, graças ao surgimento de novos fluxos informativos, que rompem o monopólio noticioso dos grandes grupos midiáticos globalizados. Ao que tudo indica não é um fenômeno episódico, mas sim algo que veio para ficar porque está ancorado numa realidade que não era mostrada pela grande imprensa.
Uma era de incertezas
Teoricamente seria um fato promissor porque diversifica a oferta informativa mas como em toda a grande mudança social, econômica e política, há um período inicial onde a incerteza, insegurança e desorientação predominam. Esta é a fase que estamos começando a viver.
Tudo indica que assistiremos nos próximos anos a uma dramática disputa pelo controle do discurso político e da agenda pública de debates. Será uma batalha onde a principal arma será a informação porque é ela que influi na forma como as pessoas veem políticos, partidos, governos, empresas e movimentos insurrecionais, entre eles o terrorismo. E nesta batalha o fenômeno das fake news ocupará um lugar destacadíssimo, como mostrou a eleição norte-americana de novembro.
Isto cria um contexto extremamente complexo para o exercício do jornalismo. A preocupação óbvia seria dar ênfase total à checagem de fatos (fact checking) mas a alternativa não é tão simples assim e nem vai permitir resultados imediatos. É praticamente impossível verificar a veracidade do avassalador volume de informações públicas diariamente na internet. Só a rede Facebook incorpora diariamente 4 petabytes de dados publicados por seus clientes. 83% dos líderes mundiais postam regularmente micro-mensagens no Twitter, cujos usuários publicam 6 mil tuites por segundo, em média. São números assustadores.
Além do volume outro complicador é a complexidade das informações inseridas na internet. Não é mais possível fazer avaliações sumárias do tipo certo ou errado, verdadeiro ou falso. Ao jogar volumes, agora já incalculáveis, de informações na web, a avalancha informativa multiplicou a quantidade de versões sobre um mesmo número, fato ou evento, o que complica e alonga o processo de verificação de credibilidade pelos jornalistas.
Ainda nem começamos a estruturar estratégias de ação para a checagem de fatos, mas pelo volume e complexidade das informações a serem verificadas parece inevitável uma descentralização e segmentação, envolvendo não apenas os jornalistas mas boa parcela da sociedade.
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Carlos Castilho é jornalista, professor e editor do site do Observatório da Imprensa

Uma entrevista sobre os deslizes do jornalismo

Setenta e duas horas após a revelação do site do jornal O Globo que noticiou uma conversa pouco republicana entre o presidente Michel Temer e o empresário Joesley Batista, da JBS, o repórter da Agência Pública Lucas Ferraz se reunia com a ombudsman da Folha de S.Paulo, Paula Cesarino, e o editor do Nexo Jornal, João Paulo Charleaux, para uma entrevista no quente dos acontecimentos que convulsionou o país.
Se o “erro é da natureza do jornalismo”, como afirmou Cesarino, como é possível reduzir a possibilidade de errar? Qual o impacto que as decisões tomadas nas redações têm na sociedade e qual é o papel do jornalista ao enfrentar os erros?
“A mesa é sobre erros, imprecisões… tudo que está nesse guarda-chuva. Acho que sempre que a gente fornece mais informação e é mais preciso, a gente reduz o risco de errar”, diz Charleaux, que organiza no Congresso da Abraji uma mesa sobre erros na profissão. Como não poderia deixar de ser, a cobertura da Operação Lava Jato pela imprensa foi um dos pontos altos da entrevista realizada na Casa Pública, no Rio.
Os principais trechos você lê a seguir.
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O jornalista Lucas Ferraz (à esquerda), da Agência Pública, mediou o debate entre Paula Cesarino e João Paulo Charleaux (Foto: Iuri Barcelos/Agência Pública)
Lucas Ferraz  ̶ O país teve uma revelação bombástica, feita pelo Lauro Jardim na quarta-feira, dia 17 de maio. Depois, quando as informações começaram a sair, causou uma enorme polêmica a frase citada na matéria: “Tem que manter isso aí”. O áudio da gravação, revelado depois, mostrou que não era bem assim o diálogo entre Temer e Joesley da JBS. Então, queria iniciar essa conversa sabendo o que vocês acharam dessa matéria de O Globo e os seus desdobramentos.
João Paulo Charleaux  ̶ Eu trabalhei nesse assunto e ficou forte para mim a cronologia. Muito se falou quando surgiu a informação de O Globo e, depois, do Jornal Nacional de que a gravação continha declaração do Joesley dizendo que pagava uma espécie de mesada a Eduardo Cunha na cadeia e que Temer respondeu: “Tem que manter isso aí, viu?”.
Essa era a única informação disponível no momento. Era um furo de O Globo. E foi com base nisso que aquela noite transcorreu. O Temer, quando fez o discurso dizendo que não ia renunciar, começa dizendo que não teve acesso à gravação. A fonte era, até então, uma só. Só depois é que aparece o áudio que, efetivamente, não fala na palavra mesada, na palavra dinheiro, propina… É um diálogo muito menos assertivo, o que fez com que a Folha de S.Paulo dissesse que era um diálogo inconclusivo.
A pergunta que a gente se fazia era: de onde veio essa constatação inicial tão forte de que se tratava de um relato de dinheiro? Era uma interpretação de quem? Só então veio o documento da PGR, onde no início se diz que aos 11 minutos e não sei quantos segundos existe um diálogo entre Joesley e o presidente Michel Temer… e aí o procurador preenche as lacunas e afirma que esse trecho do diálogo diz respeito ao pagamento mensal de dinheiro pro Cunha etc. e tal.
Aparentemente, a informação que o Lauro Jardim tinha era essa, e não o áudio. Portanto, o que ele reportou, do meu ponto de vista, foi essa constatação da PGR. Agora quem é a PGR? Ela é que pede a abertura da investigação, ela é que está na parte acusatória. Frequentemente isso vem com essa força, né? A mesa é sobre erros, imprecisões… tudo que está nesse guarda-chuva. Acho que sempre que a gente fornece mais informação e é mais preciso, a gente reduz o risco de errar.
Lucas Ferraz ̶ Paula, você acha que o Lauro Jardim poderia ter sido mais cuidadoso na divulgação dessa primeira reportagem?
Paula Cesarino Costa  ̶  Não é meu papel julgar o Lauro. A minha impressão é que em todos esses casos o que é fundamental é passar para o leitor o que você tem, de onde vem a informação e qual é a abrangência dela. A impressão que você tem no caso do Globo é que, de fato, ele tinha uma parte da história, mas não tinha a história toda. Precisava ter ficado claro que aquela história era uma parte dela. Em nenhum momento se diz assim: “O Globo não ouviu o áudio”. Esse cuidado era decisivo. Por que isso leva o leitor a poder julgar. Então, eu posso pelo menos ter o direito à dúvida de que essa informação é exatamente nesse sentido. Os jornais têm que cada vez mais criar mecanismos de como receber essas informações, processá-las e passar para o leitor.
Você tem o desafio da concorrência. Será que você precisa colocar imediatamente e mais rápido que os outros? Sem ter lido, sem ter o mínimo de reflexão, de calma? O que é melhor para o leitor? É ter uma informação mais rápida, mas menos precisa? Ou você ter um pouco mais de tempo para poder dar uma informação de maior qualidade?
No caso específico, o que me estranhou é a reação rápida com que colunistas, jornalistas e mercado condenaram o Temer, já pedindo a renúncia. Foi um caso um pouco surpreendente. E, no dia seguinte, você começa a ter uma reversão porque as pessoas começaram a ouvir. “É, não é bem assim”; “Será que é?”. Mas ao mesmo tempo não dá para você voltar tudo para trás. Tem uma gravação, tem um encontro de um presidente no subsolo de um palácio. Então, assim, não dá nem para condenar o Temer imediatamente nem para dizer que não tem nada. Acho que a dificuldade dos jornais foi conseguir organizar todo esse material.
Lucas Ferraz  ̶  A gente tem acompanhado uma dependência muito grande dos jornalistas e dos jornais pelos documentos, por aquilo que é vazado ou repassado pela investigação. O que eu queria saber é quais são os erros de procedimento no caso da Lava Jato nos últimos anos.
Paula Cesarino Costa  ̶ Primeiro, a sensação de que os jornalistas esquecem que o Ministério Público é parte. É uma parte da história. Você tem quem acuse, você tem quem defende. Os jornais comem muito na mão do MP. E, como as informações não são dadas oficialmente, são passadas em off, torna a situação pior ainda. Então, uma das falhas é acreditar de mais sem questionar o MP, a qualidade daquelas informações, as contradições e falhas. Acho isso um dos pontos principais.
João Paulo Charleaux  ̶  A Lava Jato é muito nova e não tem paralelo. Numa circunstância normal, se uma pessoa tão importante quanto o dono da JBS chega e diz para a Justiça, que é um órgão que tem fé pública: “Eu dei dinheiro para o presidente da República”, normalmente você notícia com a gravidade que isso tem.
O problema é que isso está acontecendo todo dia. E o problema é que o próprio mecanismo da delação premiada, pelo que vai se descobrindo, premia o exagero, aparentemente. Toda vez que um relato é realmente espetacular, aquilo é muito atrativo para a acusação. E, evidentemente, para o leitor através da imprensa. Todo mundo se seduz por uma narrativa espetacular que envolve corrupção de uma pessoa importante no governo.
Então, isso sai com a força que tem e é difícil de conter. Agora, onde é que entra a importância da edição jornalística da coisa? É situar isso no contexto geral. Qual etapa da investigação está? Quem diz isso? Qual o papel do MPF no processo? Qual é o papel do procurador?
Quando o Lula senta na frente do Sergio Moro e fala por cinco horas, e o jornalista reportar aquilo construindo a versão da defesa e colocando os furos que possa ter, as críticas que são feitas. Da mesma forma, quando sai a delação. Para tentar criar um equilíbrio. Não é o papel da imprensa dizer qual dos dois lados vai ter a razão. Isso é um papel da Justiça e depois, lendo o jornal, de cada leitor.
Paula Cesarino Costa  ̶  Além disso, e serve para qualquer situação, é você ouvir os vários lados de uma história ̶ não apenas protocolarmente, mas ver o que eles têm para te trazer de informação e, eventualmente, mudar o rumo da sua reportagem.
O que acho uma das falhas de procedimento nesse caso da Lava Jato? São tantas informações que no mínimo, periodicamente, os jornais têm que fazer pequenas análises do que já saiu. A Folha até fez, por acaso, uma reportagem que mostrou as contradições e erros de algumas delações. Isso é meio óbvio. Não é possível que você tenha 60 e tantos delatores e o jornal esteja publicando diariamente cinco, sete, dez matérias, dez acusações, 10 outros lados, e não se consiga fazer um balanço, uma análise do que de fato existe.
Quantas delações ou pré-delações foram feitas há um ano? E, houve contradição depois? Pouco se mostrou nesse sentido. Por exemplo, você pega o caso do Renato Duque. Agora, depois de três anos preso, ele voltou a falar e acusou o Lula de algumas coisas. Estranho! O sujeito foi preso há três anos e agora está dando um depoimento e resolveu falar? A imprensa tem que ter mais desconfiança. É saudável a desconfiança do que a Procuradoria fala e do que a defesa fala. E tem que tentar mostrar em coisas reais.
“Manipular uma informação não é um problema […] O problema começa quando você manipula de forma torpe, quando você manipula com um fim outro que não reportar com fidedignidade”, afirma João Paulo Charleaux (Foto: Iuri Barcelos/Agência Pública)
“Manipular uma informação não é um problema […] O problema começa quando você manipula de forma torpe, quando você manipula com um fim outro que não reportar com fidedignidade”, afirma João Paulo Charleaux (Foto: Iuri Barcelos/Agência Pública)
Lucas Ferraz  ̶  Vocês acham que a imprensa agiu nos últimos anos de maneira cartorial?
Paula Cesarino Costa  ̶  Não sei se dá para dizer “de maneira cartorial”, mas em muitos momentos tem um pouco essa atitude. Tenho cobrado muito nas colunas. Quais foram os momentos em que houve investigação própria? Tem uma delação, o cara falando tudo, e o jornalista vai atrás de uma história. Tem também, citando o caso da Folha, o jornalista Flávio Ferreira, que investigou e conseguiu levantar detalhes do sítio supostamente do Lula. Eu acho que os jornais se acostumaram muito com essa quantidade de informação fácil que chega e não têm uma política de investimento em investigação própria. É difícil.
Outra coisa: tem que pensar que nós estamos falando num cenário de corte de pessoal de crise financeira das empresas. As condições de trabalho das redações, hoje, não são fáceis. Faço uma análise como ombudsman e, pelo leitor, não tenho que levar isso em consideração. Eu tenho que levar em consideração o resultado final. Mas a realidade é que as versões digitais dos jornais deveriam ter muito mais mecanismos de permitir ao leitor ter essas informações.
Lucas Ferraz  ̶  Sobre a questão do Lauro Jardim, a reportagem trouxe essa imprecisão do áudio, mas ela mostrou que realmente havia uma investigação contra o Temer, trouxe detalhes que depois ficamos sabendo nos últimos dias. Como é que ele poderia ter feito de maneira diferente? É difícil para um jornalista que está envolvido num trabalho desses receber uma informação dessa e não botar logo, né?
João Paulo Charleaux  ̶  É difícil porque tem um nome que é o do Lauro. Assim, eu não tinha essa informação de que ele estava trabalhando nisso há três semanas.
Paula Cesarino Costa  ̶  O tempo, em tese, pode ser bom. O fato de ele ter ficado três semanas com uma informação, trabalhando, não é um problema. Pelo contrário. Teve um caso recente daquele ministro da cultura, o Calero. A primeira informação que a repórter teve foi justamente três ou quatro semanas antes; a informação de que ele estava pensando em pedir demissão porque tinha recebido pressões do Geddel. Então, ela foi trabalhando, conversando com ele, apurando por outros lados. Quando saiu a reportagem, era completa. Ela poderia ter dado logo de cara “ministro da Cultura diz que sofre pressão”. Eu acho quase saudável que tenha ficado três semanas com a informação.
Douglas Gonçalves  ̶  Eu queria saber essa questão de você conferir legitimidade para uma notícia a partir do que alguém disse: “diz delator”. O Perseu Abramo fez uma análise no final dos anos 1980 que avalia que conferir título para notícia é um dos padrões de manipulação mais recorrente. Eu queria saber como vocês veem essa questão da manipulação. Tanto no Nexo quanto na Folha.
João Paulo Charleaux  ̶  Sempre que eu dou palestra e tem pessoas mais jovens, e eu fazia isso quando eu estava no lugar de vocês, surge a palavra “manipulação”. Eu gosto de fazer uma provocação a respeito disso. Eu manipulo informação o dia inteiro, e me pagam para isso, é isso que eu faço. E pôr a mão é manipular a informação. Manipular uma informação não é um problema, é uma coisa boa. O problema começa quando você manipula de forma torpe, quando você manipula com um fim outro que não reportar com fidedignidade o que você está fazendo. Então, assim, a gente manipula, e acho que no Nexo a gente tenta fazer isso de forma a agregar contexto; então, é uma boa manipulação.
O que a gente persegue é exatamente uma manipulação com um critério editorial positivo. Colocar contexto, colocar significado do ponto de vista histórico, quando foi que aconteceu da última vez, que consequência teve, que significado isso pode gerar no futuro, como é que funciona em outro país, qual a ordem de grandeza disso em relação ao todo. Para que o leitor possa tomar decisões.
O “diz que”, frequentemente, é um ponto de partida para o jornalismo. “Fulano diz” é declaração. Ao manipular jornalisticamente, com critérios positivos, com competência, o que a gente faz é agregar contexto, e transformar essa declaração numa coisa que tem mais significados, que abre outros caminhos. A gente não tem que se intimidar diante disso. A gente tem que assumir esse papel. Uma das dificuldades que a rede social coloca é que todo mundo manipula. O que a gente tem, na verdade, são mais mãos trabalhando ̶ cada uma com seu critério, com seu interesse. É uma oportunidade de o jornalismo mostrar sua relevância de maneira renovada, mostrar que faz essa manipulação com critérios que são positivos para a sociedade. A gente dedica a vida ao nosso trabalho. Então uma foto que tenha sentido, um título que seja correto, uma linha fina que funcione, uma hierarquização da coisa, uma comparação, uma matéria que apoia, uma suíte no dia seguinte. Todos os recursos que o jornalismo tem para extrair o máximo de significado daquele fato. O debate se dá sobre os critérios. “Tamo manipulando bem?”.
Thiago Tanji  ̶  A imprensa, pelo menos os grandes veículos, é comandada por famílias que têm interesses diretos nos desdobramentos políticos e econômicos do país. Quando as empresas de comunicação e os jornalistas dizem “somos defensores da democracia, da ética, da pluralidade…”, não seria mais fácil que eles dissessem realmente qual é a opinião sobre determinado assunto, em vez de ficar nessa isenção que, de fato, não existe?
Paula Cesarino Costa  ̶  Os jornais têm opinião. Eu vou falar da Folha. A Folha tem, nesse sentido, um papel muito específico. O jornal não deixa de ter opinião. Os editoriais do jornal dão opinião sobre a reforma da Previdência, sobre enfim… temas os mais diferentes, aborto, drogas. Tem uma coisa específica que o jornal não faz, e é uma postura muito clara: o jornal não declara voto. Em muitos jornais do mundo, a praxe é dizer quem apoia nas eleições. A Folha não tem essa posição, é uma coisa histórica. Nunca declarou e continua sem declarar. Uma coisa é a opinião nos editoriais. Agora, o jornal busca a isenção. É neutro? É possível ser neutro? É uma discussão o ovo e a galinha. Não existe neutralidade total.
Ao editar, ao colocar no alto de uma página um determinado assunto e outro embaixo, eu estou tomando uma posição. Você é neutro ou tem um viés político? Você está defendendo uma posição política, ideológica, econômica… Eu acho que a Folha busca, de fato, o maior equilíbrio possível; daí a questão da pluralidade, de ter várias opiniões. Em muitos momentos, o jornal perde o equilíbrio. Tem momentos em que a cobertura pode ir mais para um lado ou mais para o outro. O motivo é por uma questão intencional, por incompetência técnica? Não dá muito para falar, é muito genérico. Jornal pode ter opinião, e a opinião do editorial não pode influenciar o noticiário.
Na minha experiência, em 90% dos fatos isso não acontece. Em outros jornais é diferente. O Estadão declara voto. Também acho que o fato de declarar voto não o impede de fazer uma cobertura jornalística equilibrada. Você pode apoiar o Serra e fazer matérias. Até muitos leitores preferem isso. É muito melhor eu ler um jornal que sei que apoia determinado candidato do que fingir que ele é independente. Eu entendo a desconfiança. Eu entendo que há erros, deslizes.
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“Uma das falhas [de cobertura da Operação Lava Jato] é acreditar demais sem questionar o MP, a qualidade daquelas informações, as contradições e falhas”, aponta Paula Cesarino (Foto: Iuri Barcelos/Agência Pública)
João Paulo Charleaux  ̶  Dá para pegar a pergunta por vários lados. Não vejo problema em ter grandes empresas de comunicação, de existirem grandes grupos econômicos. Qual a alternativa? Que sejam grandes grupos econômicos acho um pouco inevitável no mundo capitalista. O problema é quando não tem pluralidade. Você não tem o grande grupo, não tem o pequeno, não tem a comunicação pública. Aí me preocupa mais. Uma vez que isso está posto como realidade, como que é você trabalha com isso? São grupos que têm interesse em determinados temas na sociedade e exercem pressão para que isso aconteça. Eu gosto da ideia de um mercado editorial plural, gosto da ideia de que haja veículos que declaram voto, outros que não declaram, os que tendem para a direita, para a esquerda. Eu acho que o que importa é a pluralidade.
Mariana Simões  ̶  O que acontece depois do erro? Vocês lembram do caso que aconteceu com o Catraca Livre, quando teve a queda do avião da Chape?
Paula Cesarino Costa  ̶  Eu acho que, quando o jornal comete um erro e assume que cometeu e explica que errou, porque errou e tal, acho que isso resolve grande parte. Eu até cito o caso polêmico de uma pesquisa Datafolha em que o jornal fez uma edição equivocada, errada, na verdade. Escrevi uma coluna que o título dizia: “A Folha errou e persistiu no erro”. Quando o jornal tenta, apesar de saber que errou, não assumir o erro, tenta caminhos tortos, não dá certo. O leitor percebe. O erro é da natureza do jornalismo. A cada segundo a gente tem milhares de chances de errar. No jornalismo mais ainda, porque você tem a pressão do tempo. Ela é, de fato, desesperadora. Mas não se justifica o erro por excesso de informação e falta de tempo. Mas ele acontece. Quanto mais rapidamente o jornal corrige o erro e explica o erro, eu acho que é a solução, não tem muita saída. A coisa do “Erramos” da Folha faz diferença. Tem muitos jornais que erram e nunca mais assumem o erro. Isso é ruim. O “erramos” faz diminuir o número de erros do jornal? Acho que sim. Você fica mais atento sabendo que seu erro será corrigido publicamente. Eu também acho que tem uma coisa educativa. Você corrigir o erro faz com que, na próxima vez, fique mais atento para não errar. Tem erros de todos os tipos, né?
João Paulo Charleaux  ̶  No Nexo tem uma coisa muito clara: publicar rápido que errou. No mesmo texto, no pé, “estava errado”. Esse texto informava que tal coisa era assim e assado e na verdade não era assim e assado. Isso foi corrigido no dia tal e tal hora.
Um dia, conversando com o jornalista Marcelo Beraba, eu falava sobre cobertura de guerra e conflitos no congresso da Abraji: “Eu não quero mais falar disso porque são muitos anos, não está me fazendo bem, não estou mais trabalhando com isso”. Ele perguntou: “O que você faria se você quisesse?”. Disse que faria uma mesa do que dá errado no jornalismo. Ele achou uma boa ideia, mas ninguém aceitaria falar, né? E, de fato, é muito difícil. As pessoas recebem isso como uma ofensa. “Oi, tudo bem, queria te convidar para fazer uma mesa de erros.” “Eu não erro, né?”. “Tá bom, obrigado.” Foi uma forma psicanalítica de resolver meu próprio problema.
Lucas Ferraz  ̶  Paula, você escreveu uma coluna no mês passado citando a greve geral, que no “dia da greve o jornalismo não saiu para trabalhar”. Interessante que você cita que a imprensa brasileira abriu mão da discussão sobre a floresta. Você enquadraria isso como uma espécie de erro? Ou isso tem uma implicação um pouco diferente do erro?
Paula Cesarino Costa  ̶  Eu acho que pode considerar um erro de avaliação, de enfoque. É aquela coisa. O furo não é só a informação exclusiva, o furo é também o enfoque sobre um determinado assunto. O erro também. Essa situação foi de fato uma cobertura equivocada. Qual foi a conclusão que eu mostrei? Todos os jornais cobriram da mesma forma, essencialmente preocupados com os efeitos da greve no cotidiano das pessoas e falando os conflitos que as manifestações tiveram no final.
Sendo que não era nem manifestação, era greve. Você tinha que discutir qual era o significado, qual era a intenção, qual foi o efeito… se você for ver, nos últimos 40 anos, 30 anos, não houve nenhuma mobilização desse tipo. Foi uma greve geral como você vê na Argentina? Não. Porque a gente não tem na nossa cultura brasileira esse tipo de situação. Nesse caso é um erro de enfoque, um erro de cobertura mesmo. Foi feita uma cobertura burocrática como se fosse uma manifestação. A minha crítica é que não se tentou uma cobertura que fosse além do óbvio.
Mariana Simões  ̶  Nós não somos jornalistas americanos. E foi falado na época das últimas eleições que os jornalistas estavam convencidos de que a Hillary Clinton iria ganhar. No final, eles erraram. Erraram na convicção de que ela ganharia. O jornalista tem que levar essa culpa? Foi um erro na cobertura?
Paula Cesarino Costa  ̶  Eles não viram os EUA inteiros, não perceberam o movimento que havia no país. Claramente há um EUA que estava escondido, digamos assim. E havia uma convicção de que a Hilary era melhor. Mas, no fundo, a imprensa americana tem vários momentos em que ela vacilou, tratou o Trump como uma piada. Acho que houve uma falha de visão do que estava acontecendo. De certa forma, é um erro.
João Paulo Charleaux  ̶  A gente não sabe como lidar com esse negócio. Como é que você faz? Ele existe, está lá. Quando você aponta o que você considera grotesco no discurso, isso acaba funcionando como gasolina para pessoas que consideram esse valor positivo. E nós vamos viver isso aqui no Brasil com o Bolsonaro. Como é que vamos cobrir esses fenômenos? É bizarro. Quando você diz que ele é um cidadão que apoia tortura, as pessoas tomam isso como elogio.