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domingo, 2 de julho de 2017

Com zero surpresas, Meu Malvado Favorito 3 desiste de ser cinema para se assumir como produto

Por Roberto Sadovski



Em que ponto uma boa ideia se torna uma grande desculpa? Meu Malvado Favorito, de 2010, transformou um vilão em herói improvável, criando ao mesmo tempo um novo ícone pop, o malvadão Gru (com voz de Steve Carrell), e os melhores capangas da história com os amarelos e incompreensíveis minions. A criançada adorou, os adultos idem. Ninguém é ingênuo em acreditar que uma animação amparada com uma artilharia de marketing pesada não existe também para abraçar um mercado que rende, muitas vezes, mais que o filme em si. É o jogo do cinemão, é assim que ele sobrevive e, de forma indireta, alimenta a indústria de todos os lados – os dólares de um Meu Malvado Favorito dão lastro para um estúdio bancar projetos de apelo menos pulverizado. É um tremendo negócio!

Mas existe um equilíbrio delicado em fazer arte e alimentar um produto. A Era do Gelo, por exemplo, perdeu fôlego logo no primeiro filme, tornando-se uma série fraca na imaginação e rica em criar novas tralhas para consumo da petizada. O trem de Meu Malvado Favorito segurou o interesse na continuação de 2013 mas patinou nos trilhos quando, dois anos depois, gerou o spin off Minions. Foi um desastre, um filme que existiu com o único propósito de perpetuar camisetas, toalhas e bonequinhos de personagens coadjuvantes que em nenhum momento justificaram seu próprio longa. Mas Minions faturou pouco mais de 1 bilhão nas bilheterias mundiais, tornando-se o mais bem sucedido da série até então. “Construa que eles virão.”

Os minions já não tem mais tanta graça assim…

Meu Malvado Favorito 3 chega aos cinemas, portanto, para mostrar que a máquina não para. O frescor da novidade e a originalidade do conceito já deram bye bye, assim como desenvolvimento de personagens ou uma trama que exista por impulso criativo, e não por necessidade de manter as engrenagens girando. Como criação, o filme sequer arranha o vigor do original, ou as viradas bacanas da primeira continuação. Como produto, porém, é de tirar o chapéu. De uma só tacada, seus criadores bolaram um “novo” Gru, na forma de seu irmão gêmeo, Dru e inventaram um vilão mergulhado na hoje cool década de 80: Balthazar Bratt era uma criança prodígio com sua própria série de TV, em que fazia um adolescente maléfico, que perdeu tudo ao crescer. De alguma forma, agora adulto ele abraçou sua persona malvada e está disposto a engendrar alguma vingança genérica. Mas o plano envolve versões dele mesmo como action figure, o que deixa o filme ainda mais meta e pronto para ser embalado e colocado nas prateleiras.

Os roteiristas, verdadeiros heróis, equilibram ao menos cinco linhas narrativas. Primeiro, o plano de Balthazar. Depois, o relacionamento de Gru com Dru – este, um vilão fracassado de cabeleira loira que quer atrair o irmão de volta ao mundo do crime. Jogue na salada o malabarismo de Gru para capturar Balthazar e recuperar seu emprego como agente secreto; os minions, presos e dominando a cadeia, precisando fugir e reencontrar seu mestre; e, por fim, a busca de Agnes, caçula do trio de irmãs adotadas por nosso herói lá atrás no primeiro filme, por um unicórnio (!), dando chance de Lucy, namorada de Gru, descobrir-se como mãe. Com tanto barulho, é um milagre que o filme seja minimamente coerente, mesmo que nenhum ponto narrativo seja empolgante ou original. Resta a animação linda e acelerada, as cenas de ação com menos brilho e as gags que não vão incendiar nenhuma sala de cinema.

Mullet, ombreiras, bigodón, Madonna: vilão oitentista

O que ainda mantém a estrutura de Meu Malvado Favorito 3 em pé é a performance dupla de Steve Carrell como Gru/Dru. O ator entendeu a proposta do personagem já no primeiro segundo e aqui ele aperfeiçoa sua personalidade sarcástica, alguém acostumado a moldar o mundo segundo suas vontades, mas que encontra em sua família um verdadeiro sentido para toda sua energia maníaca. A voz caricata, que ganha mais luz quando ele assume o papel de Dru, é a de uma criança encarnando um vilão nas brincadeiras de jardim de infância. Gru não quer machucar ninguém de verdade; ele só quer o que é dele. A versão brazuca, nas mãos de Leandro Hassum, reproduz a mesma intenção e faz com que uma sessão dublada de Meu Malvado Favorito 3 seja uma experiência menos dolorosa.

No fim, esse é o objetivo da coisa toda. Se Hollywood vive de produtos, se o cinema muitas vezes é mera vitrine para um comércio paralelo, filmes como este, mirados na petizada, trazem um cenário familiar, com novidades inseridas com o mínimo de conflito com o esqueleto estabelecido. É exatamente isso que Meu Malvado Favorito 3 entrega: conforto e segurança para que a família aproveite uma sessão de cinema – ou um DVD comprado na gôndola do caixa do supermercado – com sobrevida na loja de brinquedos ao lado. Um grande ideia, portanto, torna-se uma grande desculpa quando o cinema é encarado unicamente como indústria. O que, infelizmente, deixou de ser exceção há tempos.